quarta-feira, 17 de abril de 2019

Madonna col Bambino no trem


Me sentindo privilegiada peguei o trem hoje pela manhã para ver de perto o Homem Vitruviano. São 500 anos que Leonardo Da Vinci deixou este mundo e 2019 é um ano de grandes manifestações artísticas em homenagem ao gênio. Esta não foi a primeira mostra que visitei. Há pouco menos de um mês, em Florença, tive a oportunidade de ver as maravilhas criadas pelo Verrocchio, mestre de Leonardo e tive um momento de síndrome de Sthendal quando parei em frente à uma peça de argila realizada por um jovem Leonardo em 1472. 

As "Madonnas col Bambino" começaram a ter um outro significado pra mim depois que me tornei mãe. Os sentidos se aguçaram e as emoções retidas por anos aos poucos vão se derretendo e se amalgamando pelo meu corpo como os vasos de Murano que eu vejo sendo construídos.


A Madonna sorria com seu nariz leonardesco afunilado. Era um sorriso despretensioso, natural, jocoso. Não era sorriso de obra de arte, era sorriso de gente. Porque o bambino sorria, na verdade ele ria, como quando a criança dá aquelas risadinhas gostosas, com a boca aberta, a língua de fora e a saliva que seca e deixa um odor de céu.

Esta manhã eu entrei no trem e me sentei na primeira fileira, na frente de uma mulher abraçada à sua filha. Elas tinham duas malas que ocupavam o vão entre uma fileira e outra. Como qualquer personagem fora da sua história, ela teve a reação daquelas pessoas que quase se desculpam por existir e ocupar espaço no mundo. Tocou as malas e pediu desculpas,puxando-as pra perto de si. Eu sorri e respondi que não me incomodava e pensei em quantas vezes sou eu que desempenho este papel e ajo assim.


Olhei pro trench que ela estava usando e pensei no quanto ele ficaria tão mais bonito em mim. Apreciei o fato dela se vestir com capricho. Tentei decifrar sua figura coberta com um lenço na cabeça, percebi que o cabelo dela era raspado com máquina , que ela tinha muitas rugas, um olhar cansado e certamente tinha a minha idade, senão mais jovem.


A filha via alguma coisa no celular, deitada no colo da mãe, agarrada nela tal qual o bambino com a madonna. Ela olhava pela janela, um olhar perdido, mas concentrado . Eu não queria esquecer aquela imagem e a fotografei. Sem que ela percebesse. A menina estava vestida com todo capricho. Pensei na minha mãe e na primeira vez que fizemos uma viagem de avião. Brasília era muito longe e na época existia a Vasp. 

Eu lembro do meu pai comprando as passagens na agência de viagem. Era tudo bonitinho, um carnê com data, horário com a folha de estêncil em baixo para copiar as várias vias. Me lembro de uma sobra de tecido florido que a minha mãe levou na Daura costureira para fazer nossas roupas de viajar de avião. Saia plissada e colete. A sobra do tecido florido se juntou a um tecido branco e virou roupa double face. Tão chique!

Ela então levou as mãos até as malas e ficou batendo os dois dedos assim como quando a gente está impaciente com alguma coisa. O movimento dos nervos e das veias me lembrou para onde eu estava indo: ver uma mostra de Leonardo, talvez o maior obcecado por anatomia da história. Tam tam tam, os dedos se moviam como uma máquina perfeita. 

As proporções, o círculo e o quadrado, as duas geometrias perfeitas segundo Platão, assim como eu tinha lido antes de escrever meu texto sobre o Homem Vitruviano. O céu e a terra. Ela me perguntou onde estávamos: quase em Mestre.  Levantou e pediu à menina que vestisse a jaqueta. Ela recusou aos olhos da mãe cansada. Eu intervi e usei a estratégia que o meu marido usa com a minha filha: eu também estou de casaco, está frio, está vendo: todo mundo está de casaco. Ela aceitou e a mãe cansada me sorriu. 

Como aqueles que temem ocupar espaço no mundo ela correu pra porta, pra não atrapalhar ninguém. Uma moça ofereceu ajuda. Ela aceitou. Eu olho a foto dela e pra mim parece uma obra de arte. Uma Madonna col Bambino moderna, com a luz do sol que entra pela janela do trem. Ela que olha pra fora, a menina em seu colo, um amor que transcende.                                                                                 

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Chicken Chique

Imagem Yatzer

Quando eu era pequena e ia na roça, adorava ir pro poleiro ver se as galinhas tinham botado ovo. Minha tia tinha um galinheiro, minha vó tinha um galinheiro, de modo que, na infância, vi muita galinha indo pra panela. Ela lá, mortinha com o papo ainda cheio de farelo.
Enfim, parece que os poleiros ficaram mais "mudernos". O designer holandês Frederik Roijé repaginou totalmente o objeto em questão, e apresentou-o no Salão de Milão, no mês passado.
Roijé criou o galinheiro com a intenção de despertar nas pessoas o contato com a natureza. No nosso atual cenário de alto volume de tecnologia e informação, nossas raízes têm sido deixadas de lado. Na ideia do designer, o poleiro pode muito bem ser colocado em ambientes urbanos, para que o homem relembre do papel da natureza na sua vida. Gostei!

sábado, 24 de abril de 2010

Nós, mulheres...

Imagem Google

...inocentes desde os tempos de Cabiria...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Cadeira pavão

Imagem AT Casa

É tempo de Salão Internacional de Milão. As maravilhas do design e da arquitetura são de encher os olhos.
A poltrona Peacock, do israelense Dror Benshetrit para a Cappellini, parece ser daquelas que além do design modernoso e bacana, é ainda funcional e gostosa de sentar. Não dá vontade de se jogar?
A poltrona, que lembra um pavão (daí o nome), é feita com um painel duplo de feltro, de um lado azul e do outro cinza. O material leve permite o conforto e a funcionalidade. Já o design se mostra imponente como o próprio pavão quando quer ser notado. O preço não fica para trás. A Peacock custa 3700 euros.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Cannes

Imagem Folha de São Paulo


O cartaz de divulgação do 63º Festival de Cannes com a Juliette Binoche é lindo!

sábado, 27 de março de 2010

Ruivos em extinção??!!

Imagem Google


Há algum tempo, li em uma revista que os dias dos ruivos estavam contados. Destinados a breve extinção,os indivíduos de cabelos vermelhos vinham representados, na reportagem, pelo príncipe Harry. Como nossa tendência é dizer amém para as pesquisas científicas Oxfordianas, Harvardianas, Cambridgeianas ou National Geographicanas que escutamos por aí, acreditei na teoria.
Curiosamente, desde que li a tal reportagem, percebi que não via mais ruivos por aí. Parece que nesse período coloquei um óculos antirruivos na cara e passei a ver cabelos vermelhos somente nas caixinhas de tinta da L'Oreal e da Garnier. Não que tenha algo contra os ruivos, muito pelo contrário. A pele alva, as sardas e o cabelo cor de fogo, para mim, representam um diferencial interessante.
Eu temia pelos ruivos, imaginava que gradativamente eles desapareceriam. Que os que hoje estão vivos morreriam e que uma nova geração não teria condições de se desenvolver. Que no futuro,lá na frente, as pessoas veriam os ruivos nos livros assim como hoje vemos o homem de neandertal, as múmias e o homem macaco.
Eis que de uns tempos pra cá,os ruivos começaram a aparecer para mim com frequência. Os filhos da vizinha, um cara que eu vi no cinema, uma moça que vi no cursinho. E nos dias que se seguiram, vi ruivos no supermercado, na rua, no parque, na televisão.
Descobri que a tal teoria de que os genes recessivos que doavam o tom vermelho aos cabelos sumiriam não passava de mais um alarmante exagero. Descobri, ainda, que os ruivos estão mais fortes do que nunca. Criaram movimentos, blogs (veja os links abaixo),discussões e até peça de teatro.
Mas a minha descoberta maior foi ver como nós, seres humanos, introjetamos e absorvemos informações e conceitos que passam a ser verdade absoluta. Os ruivos sempre estiveram ali no supermercado, no cinema, nas escolas, nas ruas, nos parques e na televisão. Era eu que não conseguia enxergá-los.

www.osruivos.blogspot.com
www.ruivosmania.blogspot.com

sábado, 21 de novembro de 2009

Duo de descoberta

Imagem Google

Quando o errado é o certo
A gente tira o sapato
E pisa no nosso hemisfério

Quando o certo vira passado
A gente pega o que era o errado
Monta um novo mapa e tenta se manter acordado

Percorre as avenidas internas
Encontra novas janelas
Respira pela pele

Quando o errado mostra o certo
A dor vira progresso

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Totó democrático

Imagens Corriere della Sera

Quando eu era criança adorava jogar totó com meus primos, apesar de ser fraquíssima e perder todas as partidas. Foi pura diversão quando descobri o totó, mas não achava graça nenhuma quando nas pescarias da festa junina da escola, acabava ganhando aquele sem graça jogo de botão com os brasões Atlético/Cruzeiro ou Flamengo/Botafogo.
Gostava mesmo era dos estojinhos de maquiagem. Quando meus pais saíam e minha avó ficava em casa cuidando da gente, eu aproveitava a sua falta de autoridade pra me pintar todinha. Me lembro ainda hoje da cara dela de desespero tentando me limpar antes que minha mãe chegasse.
Enfim, nos jogos de criança, pelo menos na minha época, tinha aquela coisa de menina brincar de boneca, menino brincar de bola. O contrário era totalmente estranho a tal ponto de fazer a gente se sentir em culpa por gostar de jogos de meninos. Adultos estúpidos...
Ainda bem que hoje as coisas estão mais democráticas. Se o mundo do futebol era (e ainda é) visto como um universo predominantemente masculino, por que não dar um toque feminino na coisa?
Foi o que fez a designer francesa Chloe Ruchon ao desenvolver uma mesa de totó feita com vinte e duas Barbies loiras, morenas e ruivas, vestidas em look esportivo. O brinquedo foi realizado em parceria com a Mattel e a BabyFoot Bonzini, tradicional empresa francesa que fabrica mesas de totó. Em série limitada, o "BarbieFoot" custa 10 mil euros. Só o preço não é democrático.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Muito além do vinho

Imagem Green Cork

Finalmente o inverno resolveu dar as caras. Os dias mais nublados também têm o seu fascínio, ainda mais quando se tornam cada vez menos frequentes.
Pra muita gente, frio é sinônimo de vinhozinho à mesa, para alguns, saboreá-lo independe da estação. Na Itália, ao menos um terço da população bebe vinho cotidianamente. Mas alguém já parou para pensar pra onde vão as rolhas dessa quantidade infindável de vinho que o mundo todo consome?
O Rilegno, um consórcio italiano para a recuperação e a reciclagem de embalagens de madeira, está mobilizando em todo o país um movimento para recolher as rolhas usadas nas casas, restaurantes, bares e hotéis. Pouca gente sabe, mas o material é 100% reaproveitável e pode ser utilizado de várias maneiras, em painéis de isolamento, objetos artísticos, sapatos, produtos para a construção civil e instrumentos musicais.
No mundo inteiro, são extraídas 300 mil toneladas de cortiça por ano. A cortiça é retirada da casca das árvores e, como qualquer produto natural, é limitada.
Um movimento similar já tem força em Portugal, o GREEN CORK - Programa de Reciclagem de Rolhas de Cortiça. O projeto defende o reaproveitamento das rolhas como solução para preservar o meio ambiente e pretende em 5 anos, plantar e cuidar de 1 milhão de árvores.
E se no Brasil temos ainda pouca informação sobre a reciclagem das rolhas, podemos fazer nossa parte separando plástico, metal, papel e vidro dos orgânicos. Não tem nenhum segredo.
Para visitar o site dos dois programas

http://www.earth-condominium.com/port/green.html
http://www.tappoachi.it/

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Lamentável

Imagens Correio Braziliense

Notícia triste do dia: Igrejinha sofre vandalismo e irá abrir somente nos horários de missa.
A igrejinha aqui de Brasília da qual eu falei alguns posts atrás sofre com o vandalismo. Rabiscaram a imagem da Nossa Senhora com caneta esferográfica e carvão... Será que Deus perdoa ignorância?

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A Síndrome de Firenze



Me surpreendi com este vídeo fantástico hoje, enquanto almoçava em um restaurante perto de casa. É a única hora do dia em que vejo TV.
Antes mesmo que aparecesse o letreiro no final do filme eu já sabia do que se tratava, a maravilha do Inhotim.
Excelente trabalho da agência Filadélfia, produção mineira de encher a gente de orgulho. O filme foi inspirado na Síndrome de Sthendal, um fenômeno descrito pelo escritor francês Sthendal como uma série de sintomas como falta de ar, palpitação, taquicardia, vertigem e desmaios em pessoas que visitaram a Galleria degli Uffizi, em Firenze.
A Síndrome de Sthendal é conhecida também como Síndrome de Firenze. Em 1817, de passagem pela cidade, Sthendal foi completamente absorvido pelos sintomas descritos ao visitar os locais que abrigam obras de arte.
"Havia atingido aquele nível de emoção onde se encontram as sensações celestes das artes e dos sentimentos apaixonados. Saindo da Santa Croce o coração bateu forte, caminhava temendo cair"
Em 1979, a psiquiatra Graziella Magherini analisou mais de 100 casos em turistas que visitaram Firenze. Entre os afetados, indivíduos de formação clássica, europeus e japoneses sensíveis à arte.
E pesquisando sobre o vídeo do Inhotim, descobri que sofri e ainda sofro a tal da Síndrome de Firenze. É realmente difícil explicar o encanto, a admiração, a atmosfera envolvente e perturbadora que Firenze causa na gente. Ali, eu não deixei somente parte da minha história, em Firenze, deixei também parte do meu coração.
E se um escritor francês descobriu que Firenze pode ser doentia, eu posso dizer que ela me deu muito mais que paixão, ela me ensinou a amar.


Firenze, vista por mim

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Cheios de estilo

Imagem Iara Vitral

Num mundo de regras, ditames e imposições de tendências, eles que­rem ser diferentes. Não para chocar, ser rebeldes ou outro motivo seme­lhante, mas simplesmente para desafiar o convencional e buscar a beleza nas coisas não óbvias. Vitrines, revistas, catálogos e novelas passam longe de serem fontes de inspiração para essas pessoas. O foco do olhar está nas ruas, no design, na arquitetura, na literatura e nas artes. Na verdade, o papel social da moda é expressar va­lores, e essa turma, considerada por muitos alternativa e fora do comum, leva tudo isso muito ao pé da letra.
“Amo a moda, mas acho importante traba­lhar a evolução do pensamento e não condicioná-la somente a estilo e status”, filosofa Uiara An­drade, assistente de estilo da grife Tereza Santos. Com experiência sólida no setor, Uiara, que aos 18 anos começou sua trajetória como modelo, tem uma visão muito particular da moda. Para ela, estética e comportamento devem andar juntos. “Sem­­pre procurei des­mi­tificar regras, o que en­gorda, o que cai bem, o que não cai. Meu olhar procura trabalhar com o que falta e com o que pode ser feito”, explica.
Para continuar lendo esta matéria que fiz para a Revista Encontro, clique aqui

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A Igrejinha de Brasília

Imagens do Blog da Conceição Freitas, do Correio Braziliense


A Nossa Senhora de Fátima de Brasília não precisa de olho, nem boca, nem nariz. É bonita e expressiva mesmo sem expressão. Ora, que coisa mais estranha todas as Nossas Senhoras do mundo terem rostinho bem feito, olhar piedoso e nariz perfeitinho. Afinal, Nossa Senhora é sagrada, ué, é como um ser de outra dimensão, por que então ela tem que ser igual à gente, com olho, boca e nariz?
Se as crianças são as preferidas ao lado de Deus, que problema tem pintar um céu azul dentro da igrejinha, com pipas e carretéis coloridos?
"Ah, mas tá muito feia essa igreja, não tem nem a via sacra, era tão bonita antes da reforma", reclama a senhorinha da cabeça branca frequentadora das antigas. Enquanto isso,no lado de fora, a família posa para a foto depois do batizado de mais uma criança.
A igrejinha em forma de chapéu de freira só podia mesmo existir em Brasília, lugar onde as óbvias esquinas escondem surpresas a quem acha que tudo aqui é óbvio.
O artista lutou com pincéis contra a incompreensão de quem achava que a igreja também tinha que ser óbvia, padronizada. No lugar das cruzes, via sacras e lágrimas, ele pintou cores, alegria, beleza. E a igrejinha ganhou vida, com a Nossa Senhora, os pastores e um universo puro anil.
Alcançar o céu não é só sonho de beata, é luz, imaginação, é magia que torna possivel e legitima aquilo que chamamos de fé.

domingo, 28 de junho de 2009

A casa dos sonhos

Imagens do site minihouse.se

Quando eu era pequena, sonhava com uma casa em cima da árvore. Pegava o Manual do Professor Pardal na biblioteca do meu pai e ficava conjecturando um modo de realizar meu sonho. Tive que me conformar com as cabaninhas que fazia com as cadeiras da mesa de jantar e alguns cobertores.
Tudo bem que, na condição de criança, jamais conseguiria a proeza de montar a casa na árvore, mas no mundo dos adultos, tudo muda de figura. O jovem arquiteto sueco (ah, os talentos da Suécia...) Jonas Wagell encontrou a solução através de uma lei de seu país. Desde primeiro de janeiro de 2008, é possível construir na Suécia uma casa de até 15 metros quadrados no próprio terreno, sem qualquer tipo de autorização ou burocracia.
Wagell desenvolveu então a minicasa, uma casinha pré-fabricada que pode ser montada em um final de semana, seguindo um manual de instruções. Oito peças de compensado formam a estrutura da casa que é moderna, funcional e muito aconchegante.
A minicasa custa 12 mil euros e pode ser personalizada com módulos que são pagos à parte. Confesso que a ideia me trouxe de volta os sonhos de criança que ficaram esquecidos nas páginas do antigo Manual do Professor Pardal.
Para ver mais fotos e a maquete,acesse o site www.minihouse.se



quinta-feira, 25 de junho de 2009

Novo endereço

Imagem Google

Já não ouço mais a baderna dos meninos da favela quando voltam da aula, nem os pneus dos carros deslizando em dia de chuva, insistindo em alcançar o topo do morro. Da minha nova janela, vejo pessoas saudáveis correndo em volta de um bosque. Um céu que parece o infinito do mar, com nuvens que são loucas propositalmente para dar movimento onde a gente só vê linhas. De vez em quando, um louco passa gritando, mas eu nunca consegui entender o que ele diz. Aqui não existem vozes, talvez porque as esquinas são muito rígidas. Nunca escutei latido de cachorro ou miado de gato, mas de noite quando fecho os olhos, ouço pássaros que me dão boa noite e me acordam bem cedinho no dia seguinte. Carros, carros, carros, como se a longa avenida não tivesse fim nem tempo certo pra ser percorrida. É bom ter um espaço grande e um horizonte sem fronteiras, mas faz falta a sensação do aconchego das ruas estreitas e dos pequenos quadradinhos de céu, escondidos entre árvores e prédios de muitos andares. Mudar de endereço não significa mudar de identidade, como se o passado pudesse ser cancelado como foto antiga de documento, em que ninguém nos reconhece mais. Olhar por uma nova janela não pode ser difícil se a gente busca enxergar o sentido por detrás de cada mudança.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Milhares de sóis

Foto de Isabela

O sol se põe inúmeras vezes ao longo da vida que a gente vive. A magia deste momento significa a hora do jantar de quem vive na roça, o sinal barulhento para os alunos na sala de aula, a ave maria musicada para o caminhoneiro que segue viagem, a reverência de frente à mesquita, o sinal da cruz perante a igreja. Quantos pôres do sol a gente vive sem vivê-los e quantos deles a gente guarda pra sempre como um momento único e sublime.
Eu me lembro muito bem de dois, um na montanha e um no mar, um com pássaros e outro com golfinhos, um com vento e outro com a brisa.
Sentei na neve fofinha e olhei lá de cima a casinha de pedras, nem sinal de cidade. Na minha frente uma montanha, do meu lado e atrás de mim, outras duas, era uma cadeia e eu no meio dela. Os mistérios do dia-a-dia foram dissolvendo como quando o sol encosta na neve no início de primavera. O frio entrou pela orelha e me fez amassar o nariz com as luvas. Eu sabia que passados os anos, eu jamais iria viver a mesma sensação.
Subi uma outra pedra no verão do oriente, escorreguei na terra marrom, ralei o dedo e fiquei com medo. Nos sentamos e aceitamos o melão do vendedor solitário que suava carregando um balaio. Saboreando a fruta doce e contemplando o mar até onde vai aquela linha de infinito, avistamos seis golfinhos que lá de longe transitavam alheios ao que acontecia no mundo fora do oceano. Um balé fenomenal ritmado por uma música própria, já que o único som era aquele do vento. A bola de fogo descia e estava cada vez mais perto do mar, dentro de pouquíssimos minutos ela encontraria os golfinhos, os peixes e toda a vida no fundo do mar. O espetáculo deixaria de ser só nosso. Não pude não sentir imensa gratidão por ter uma terra minha,um sol meu, seis golfinhos, um companheiro e milhares de pôres do sol pela frente.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Você é o que você usa

Imagem Google

Alguém sabe realmente o que está por detrás da camiseta que veste? Não falo de estilo ou de moda como expressão de ideologias ou estado de espírito. Falo de todo processo pelo qual esta peça passou até chegar ao nosso corpo, da colheita do algodão ao transporte que a levou até a vitrine onde ela nos encantou.
Muita gente não sabe, mas o algodão, material presente na maioria das roupas que a gente usa, é um dos que recebe maior quantidade de agrotóxicos. 25% dos inseticidas usados no mundo são destinados às lavouras de algodão. Isso significa que estamos usando veneno para cobrir o nosso corpo. Um veneno perigoso, que além de afetar o meio ambiente, está matando aos poucos as pessoas envolvidas na colheita e contribuindo para desequilibrar o planeta.
Conheci o Instituto Ecotece, ao redigir uma matéria sobre consumo consciente para uma revista. A organização foi criada pela jornalista Ana Cândida Zanesco, que me explicou os objetivos do Ecotece e falou sobre a importância de avaliarmos o impacto do que vestimos no meio ambiente e na sociedade.
Para a produção de uma camiseta que pesa 250 gramas, são utilizados 160 gramas de agrotóxicos. Além disso, os processos de lavagem, tingimento e transporte agridem ativamente a natureza. Uma solução defendida pelo Ecotece é o uso de algodão orgânico, que além de respeitar o solo, não afeta a saúde das pessoas e sua produção realizada por pequenos agricultores locais, ajuda a incrementar a economia de forma sustentável. Todo mundo sai ganhando.
O Vestir Consciente, movimento criado pelo instituto, propõe uma mudança de consciência. Falar de moda ecológica, socioambiental ou sustentável é pouco. O que eles defendem é um retorno às nossas origens, de um relacionamento mais puro e respeitoso com a mãe natureza.
A dica para colocar a coisa em prática vem de soluções simples: que tal pensar se realmente precisa daquela roupa que está prestes a comprar? O que acha de reciclar aquela que já tem no armário ou procurar em um brechó alguma peça legal? A gente é o que a gente usa, e a partir daí mostramos pro mundo nossa inteligência e sensibilidade. Uma visita ao site do Ecotece ajuda a abrir os horizontes.
www.ecotece.org.br

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Cidade de areia

Imagem Afp

Os maiores artistas de escultura na areia estão reunidos em Berlim, onde acontece até agosto, a Sandsation 2009, famoso festival internacional de esculturas na areia. O evento transforma a estação central de Hauptbahnhof em uma verdadeira galeria de arte e este ano tem como tema a "Cidade do Futuro". São 12 esculturas realizadas por artistas do mundo inteiro, a maior delas, de cerca de 8 metros será feita de forma coletiva por todos os participantes. A proposta dos organizadores é que eles realizem uma escultura pensando em como será Berlim no ano de 2222. O evento marca as comemorações pelos 20 anos da queda do Muro de Berlim. Para realizar as 12 esculturas expostas foram necessários 5 mil metros cubos de areia. Um dos favoritos é o artista indiano Sudarshan Pattnaik, com sua obra intitulada "Cidade da Paz", na foto acima.

sábado, 30 de maio de 2009

C H A I R

Imagens Yatzer

Este é o quebra cabeças mais fácil de montar do mundo. Já vem com a resposta pronta. Erik Ku, de 26 anos é o designer gráfico que bolou a peça. O "Projeto Cadeira" faz parte de sua tese "Mission Redefinition", uma série de exercícios que exploram o conceito de redefinição através do design gráfico. Não é bacanérrimo??


terça-feira, 26 de maio de 2009

Bom exemplo

Imagens Google

Quem pensa que trocar o saco plástico pelas ecobags é trabalho de formiguinha, pode mudar de opinião. Desde que proibiu o uso das sacolas de plástico no comércio há um ano, a China economizou 1,6 milhões de toneladas de petróleo. Antes da proibição, o gigante asiático consumia diariamente 3 bilhões de bolsas descartáveis, o que representava uma grave ameaça ao meio ambiente.
Segundo o blog Planeta Sustentável, as sacolas de plástico demoram pelo menos 300 anos para se decomporem no meio ambiente. Em todo mundo são produzidos 500 bilhões de unidades a cada ano, o equivalente a 1,4 bilhão por dia ou a 1 milhão por minuto.
No Brasil, Xanxerê, uma cidadezinha de 40 mil habitantes em Santa Catarina, quer ser exemplo. Desde 1º de abril, os supermercados da cidade optaram por não distribuir mais sacolas de plástico gratuitas e Xanxerê tornou-se o primeiro município do país a adotar o uso obrigatório de sacolas ecológicas. A ideia partiu de um grupo de supermercadistas e teve apoio da prefeitura, da Secretaria de Educação e da Secretaria de Meio Ambiente.
Antes do projeto, eram distribuídas mais de 1 milhão de sacolas plásticas de uso único por mês, somente nos 30 supermercados da cidade. Xanxerê quer virar exemplo e incentivar outras prefeituras, órgãos públicos e empresas do setor privado a adotarem também uma atitude mais consciente.