sábado, 12 de julho de 2008

Sobre heranças obrigatórias

Foto by Google

Dizer que eu não concordo em viver num mundo de extremos como o qual a gente está vivendo parece repetitivo.Mas o que eu posso fazer se não consigo fechar meus olhos? Aliás,agradeço por mantê-los bem abertos. Seria muito mais fácil vendá-los ou observar uma cena triste e arrancá-la do meu cérebro me consolando: não é culpa tua!
Todos os sábados,meu pai leva a minha sobrinha para a feira da cidade.Esta feira existe desde que eu era pequenininha.Os produtores rurais da região enchem suas kombis de frutas,verduras,legumes,queijos,doces,pães,ovos, galos e galinhas. Tem até uma barraquinha de coisas usadas,brinquedos velhos,revistas,espelhinhos, relógios, objetos estranhos. E um senhor vendendo 24 agulhas por um real.Mas quem é que precisa de tanta agulha,minha gente? Entre o povo que passa barganhando, os cachorros sarnentos que procuram os restos e o povo da cidade (entre ele,alguns políticos já em fase de campanha), a pequena se diverte. Quando vê um galo cantando e a galinha batendo asa,lembra logo dos que tem em casa, presente do avô coruja e privilégio para os poucos que ainda podem ter um quintal em casa,para inveja e desespero dos vizinhos reclamões.
A pequena tem um ano e nove meses,é muito esperta,simpática,faladeira e adora o passeio da feira. O avô é um exibido declarado. Pede à moça que coloque uma roupa bem bonita na menina no sábado.De xuquinha ou de chapéu e com um cachecol amarrado no pescoço, ela chega toda serelepe,pede a mão,pede colo e quando tá afim de fazer uma graça,sobe na cagunda e vai de cavalinho.
Hoje eu ajudei a escolher a roupa.Casaco multicolorido,todo cheio de flores,calça vermelha boca de sino,tênis rosa e cachecol de time de futebol italiano. Era a princesinha da feira.
Ela chega e não sabe pra onde olha de tanta coisa colorida, tanta gente passando, tanto cheiro diferente, fumaça de churrasquinho,au au fedorento e sujo, senhorzinhos da roça de chapéu e cigarro de palha e mulheres de tranças enormes e narizes tortos.
Houve um tempo em que eu questionava muito os modelos que nos são impostos desde que a gente nasce. Uma vez, consultei um especialista sobre nós,mulheres e sobre o instinto materno.Ele me disse que segundo os grandes estudiosos da psiquiatria, todas nós nascemos com ele,umas o desenvolvem de forma mais intensa,outras o deixam um pouco de lado em busca de outros interesses. Mas eu sei que tudo é herança e obra do ambiente que a gente vive. Ora bolas, se eu nasci é porque meu bisavô nasceu,conheceu a bis,fizeram meu nonno,que fez minha mae,que me fez com a ajuda de um outro tronco oriundo do mesmo processo.O modelo é esse.
O homem trabalha e a mulher nana o nenê. Inevitável. Já pensava muito nesses modelos e na força deles através dos anos quando eu vi minha sobrinha com menos de um ano de idade, pegando uma bonequinha e fazendo ela nanar. Simbolicamente isto representou pra mim o início de todos estes questionamentos que me acompanhavam já de algum tempo. O instinto materno dela já estava sendo aguçado pelo modelo do nosso mundo e isso estava acontecendo com um pinguinho de gente.
Pois agora volto à feira. A gente tava de mãos dadas,ela, muito mais à vontade que eu.Eu estava um pouco desorientada com tanta gente, tanta coisa e preocupada com os cachorros sarnentos que poderiam chegar perto da princesinha ou de algum grandão distraído que não olhasse pra baixo e passasse por cima dela. Minha preocupação não me deixou perceber que entre uma barraca e outra, tinha um mendigo.Escutei do meu pai: Espera. Parei,e ele tirou do bolso algumas moedinhas,entregou pra pequena, ela me puxou, dando dois passos pra trás. Olhei pro chão e vi o mendigo. Sujo, sem as duas pernas, balançando uma latinha. Olhei minha princesinha, vestida de roupa colorida,linda,loirinha de olho azul, cachecol do time de futebol italiano que colocava as moedinhas dentro da latinha que o mendigo balançava.
Meu olho, que dois segundos atrás se distraía em meio ao caos, registrou a cena incrédulo, perplexo, indeciso sobre o que pensar, sobre as conclusões a retirar.
A mesma menininha que aprendia inconscientemente seu papel no mundo a fazer a nana do bebezinho de plástico,era a mesma que aprendia a fazer algo que também será parte do seu mundo, tirar suas moedas do bolso e piedosamente participar da degradação do ser humano.
Lembrei agora, da velha da esmola,uma senhora de cabelo branco,que vinha sempre de camisa de mangas curtas e saia longa. Batia a campainha na hora do almoço. Ela não falava nada, não pedia nada. Batia a campainha, olhava pra cima com seus olhões azuis. A gente corria pra avisar: Mãe, é a véia da esmola(nunca soubemos seu nome). Da sacada, a gente jogava umas moedinhas pra ela (até a minha mãe inventar uma gambiarra feita de corda de varal e cestinha de plástico de guardar shampoo no banheiro)...ela dizia: Deus te ajude. Se virava e batia o portão. Às vezes o deixava aberto como quem diz:Ok,já subo pra almoçar com vocês, deixa eu só chamar meu marido ali na esquina, rapidinho.
Certamente, a minha sobrinha não entendeu o gesto que fez. Certamente, o avô ensinou, mas ela ainda é muito pequena e muito inocente pra entender a complexidade deste mundo tão louco.
E se ela fosse um pouquinho maior,sinceramente,não sei o que lhe diria se ela me perguntasse: Tia,quem é esse moço, por que ele está assim? Não sei de quem será esta missão. Tem coisas que não têm muita explicação...é como se o mundo nos acolhesse sem nos deixar a chance de dizer não.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Carta a Idi Amin

Foto by Isabela

Querido Idi Amin,

Quando eu era pequena, te vi pela primeira vez e senti um medo tremendo. Não entendia bem o seu nome e, quando cresci e soube quem foi Idi Amin Dada, achei uma tremenda injustiça te chamarem assim. Preferia algo como Tião Macalé ou Buiú.
Sempre escutei falar seu nome, que você era único na América do Sul,comia aos montes e pesava uns 200kg. A sua cara de mau, que me assustou quando eu era criança, com certeza sobreviveu na imaginação das milhares de crianças que um dia te conheceram.
Idi, você já tem 35 anos. Passaram-se 33 anos desde que você, bebê, virou mineiro, belo-horizontino, cidadão do mundo. Às vezes fico pensando...O que é que você fez durante todos estes anos, além das caretas,pulos e malabarismos que assustavam as crianças pequenas, aguçavam a curiosidade daquelas maiores e faziam divertir pais, mestres e guias de excursão. A sua solidão,Idi, durante todos estes anos, tocou o coração de tanta gente, ao mesmo tempo que serviu de consolo a moças e rapazes desesperados, em busca do grande amor. Pois se o mais imponente (não,não vou te chamar de bonito porque você sabe que você não é,me perdoe), importante e forte não conseguiu ainda encontrar o amor, existe esperança no mundo.
Idi,meu caro, quanta polêmica você gerou,sem nem mesmo saber o porquê,quando quiseram transformar sua África artificial em mansão. Você ganhou mais espaço pra ser apreciado com a projeção de um túnel,cachoeira, gruta, novas espécies vegetais pra se sentir mais à vontade e ainda recebeu críticas e fúria pelos 200 mil gastos com seu novo lar.Deve ter sido um daqueles arquitetos bem chiques que ajudaram no projeto,né?
Mas tudo isso, Idi, foi mais um incentivo, mais uma esperança, um cantinho a mais na sua solitária morada para abrigar uma possível companheira,que talvez lhe tirasse da cara essa expressão brava e mau humorada que você tem.
Eu entendo, Idi, que desde cedo você conheceu o sofrimento.A Dadá,que veio com você e seria sua companheira,morreu pequenina,deixando um enorme vazio no seu coração.A esperança veio com a Cleópatra, a Cléo,que chegou de São Paulo(e não do Egito) pra te trazer um tiquim mais de alegria.Tudo bem, ela era mais velha que você, mas era uma coroa bem enxuta.Pena que estava doente e a convivência de vocês durou tão pouco. Em duas semanas num deu nem tempo de saber mais detalhes sobre a vida dela,né? Nem pegar na mão,nem uma bitoca...Uffa!!!
Idi, desculpa a indiscrição,mas então você é virgem,né? Ah,não se preocupe. Outro dia, soube da história de um rapaz que se casou aos 33 anos e que também era,ele quis se guardar para a esposa. Este tipo de coisa não acontece mais.Mas eu acho que cada um faz sua escolha ou vive a circunstância. O importante é não se abalar.
Aliás,Idi, depois de alguns anos, eu voltei pra te ver.É que o tempo passou rápido demais e agora chegou a vez dos nossos filhos e sobrinhos te conhecerem.A Mari,minha sobrinha, não teve tanto medo de você como eu e a mãe dela tivemos anos atrás.Acho que ela até gostou das suas estripulias e da agitação dos teus milhares de admiradores.
Sabe,Idi, eu não sei se você é um daqueles solteirões alla Carrie Bradshaw,desesperado para casar,ter filhos e constituir família.Sei que a pressão é forte.Procuram pelo mundo inteiro pretendentes para você.Dizem que tão vindo duas inglesas por aí...Também,pudera.Um partidão,fortão,saudável,adorado por crianças e adultos e ainda por cima,dono da maior mansão da Pampulha...Vixi!!Eu até imagino ela chegando,batom vermelho,lenço de onça amarrado na cabeça,bem africana e piscando o olho pra você.Já pensou nisso?Vai ver eu acabei de advinhar seu sonho de todos os dias.
O que eu queria te dizer,Idi,é que eu acredito no amor.Naquele que soma,distribui,semeia e colhe. Eu acho,Idi,que você é um solteirão cobiçado e que,por mais que o mercado esteja escasso de macacas de nível (a não ser aquelas de auditório),sua hora também vai chegar.
E sabe de uma coisa,Idi...se a pretendente demorar ou nunca chegar, ou você não se simpatizar com as tais da terra da Rainha(o tempo tá ficando curto),eu acho que você vai ter semeado o amor de todo jeito.Você pode ser feio,meio desengonçado, mau humorado,mas eu me lembro bem, da alegria que desperta em crianças e adultos que esperam que você saia da sua grutinha e apareça fazendo suas macaquices.De repente, um grita: Ele apareceu!!!E é uma correria danada de gente querendo te ver.Quer amor maior que esse,Idi?
Agora,se por acaso você encontrar seu amor e virar papai,ensine ao seu filho,Idi,a ser como você,passe o bastão e a responsabilidade de fazer as novas gerações sorrirem e colarem os rostinhos curiosos e afoitos no grande vidro que separa a sua mansão africana do imaginário de cada um de nós.

Satisfações,

Isabela

Gringas no Samba



Na capoeira de sexta-feira do Mc Donald's da Savassi,as gringas cairam no samba

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Seja bem vindo, Bernardo


Eu e Babau,há muito tempo atrás

Quando eu nasci,devia tá um frio danado...pleno inverno.
Hoje,3 de julho, é dia de BERNARDO. Com muita alegria e emoção recebi a noticia do seu nascimento. Não sei se o Bernardinho já percebeu que a cidade onde ele nasceu, nessa época do ano faz frio. Imagino que ele deve tá grudadinho no peito da mãe dele,aquele lorão lindo de 1,80m de altura,desengonçado,engraçado,carinhoso,amoroso e amigo.Bráulia,a Babau deve tá babando na cria. Se ela já babava na Claires,a gata,imagina no Bernardo,o filho!!
O que o Bernardo espera do mundo, o que o mundo vai ser pro Bernardo?Sei que quando ele sair dali,do berçário do hospital e cair no mundo,ele vai tremer de frio.Quem mandou nascer em julho?Sei,que o Bernardo,quando tiver grande vai pedir pra mãe dele: Mãe,me conta do dia que eu nasci..Sei, que quando o Bernardo crescer,se existir um novo programa nos moldes da porta da esperança,ele vai se emocionar(ele é macho,mas vai se emocionar)Sei, que quando o Bernardo crescer e arrumar a primeira namorada,ele não vai vacilar e vai sim se declarar...tomara que a mamãe Babau aprove o namoro.Sei, que quando o Bernardo crescer e for escolher sua profissão,ele vai ouvir a voz do coração,vai escutar sua vocação. Sei, que quando o Bernardo tiver só um tiquim maior,ele vai grudar nos cabelos da mãe,nas orelhas do pai e ficar quietinho,sentindo o calor,o carinho e o amor dos dois.
Sei tudo isso e muito mais porque o Bernardo teve a benção de nascer sob o signo de câncer, o mesmo de quem vos fala,o mesmo de quem chora,se emociona e cai em lágrimas por qualquer bobagem. Mas minhas lágrimas,minha emoção de hoje vão pra você,Bernardo.São lágrimas de felicidade, são lágrimas de uma tia que acaba de ganhar um sobrinho e que planeja que sua vida seja repleta de felicidades,que você seja um menino bom,inteligente,esperto,honesto e que seu coração seja feito tal qual o da tua mãe.Que você seja forte como ela,lindo como ela,bom como ela.
Bem vindo ao mundo,Bernardo. Que Deus te abençõe.
Com muito carinho,

Tia Bela

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Reflexões de 2 de Julho


O que é que pode acontecer no giro de um ano da vida de uma pessoa?Talvez,pro senhor do primeiro andar, não tenha mudado tanta coisa...Mentira,ontem sentei do lado dele no restaurante da esquina e ele me disse que vai mudar de apartamento...Muito morro,minha filha,muito morro.
Nos quatro anos em que morei na Itália, não consigo entender ainda o que eu estava procurando.Um refúgio,novos amigos,novas oportunidades,outra língua,um amor,outro tipo de paladar,pizza de Napoli,mortadela de Bologna,presunto de Parma,a possibilidade de sentir a mudança das estações que eu tanto gosto,crescer,aprender,viajar,viver.Talvez eu não tivesse em busca de nada em específico.Fui,gostei e fiquei.Vim,vi,venci.Na própria terra em que Julio Cesar proclamou a célebre frase.
Quando eu achei que tinha vencido,ou naquela altura do campeonato,perdido,ou sei lá, resolvi que algo devia mudar.Após alguns bons meses de dilema e sofrimento,com o coração dividido entre o Brasil, onde eu nasci e a Itália, que tanto amei,me dei um ultimatum.
O dia era esse, 2 de julho de 2007,última chance...
Foi meu primeiro aniversário feliz,na companhia de amigos,na mesa de um restaurante desde que tinha deixado o Brasil.Cheguei um pouco atrasada e,ainda de pé,soltei a bomba: Gente,acabei de pedir demissão.Em breve, volto pro Brasil.
Alguns chocados,outros riam duvidando de mim...e outros ainda pensando num lugar novo pra eu trabalhar.
Me lembro que eu estava muito feliz.Feliz pela companhia dos amigos,pelo carinho de todos eles.Me lembro como eu estava vestida.Camista branca,jeans rasgado Dolce&Gabbana,sandália salto 9,vermelha em verniz também Dolce,minha extravâgancia consumista da época.Desde junho, tinha começado a me presentear:viagem de férias a Ibiza e um antigo sonho de consumo realizado,um bauzinho Louis Vuitton original,onde mandei gravar minhas iniciais.
A vida na Itália durou ainda um pouco mais...de julho a setembro tive muito tempo pra rir,pra chorar,pra ser enganada e pra ter ainda muita decepção...e ainda,a insegurança de estar fazendo a coisa certa ou não.
Posso dizer que o dia precedente ao meu retorno,foi a ocasião em que eu mais chorei em toda minha vida.Acordei com lágrimas nos olhos e cada passo que dava pelas ruas da cidade,parecia que um pedaço de mim ia embora,doía,doía mesmo...verdade,como se um pedaço do meu corpo se destacasse e caísse ali no chão.
Já esperava por isso.
2 de julho,2008,Belo Horizonte, Brasil...acho que no giro de um ano já posso fazer um pequeno balanço da minha decisão. Sim,foi difícil,mas acertada.O 2 de julho de hoje não tem restaurante,não tem amigos,não tem o verão pulsante da cidade e o dia claro até tarde. Não tem as flores que a Lu me deu(mas tem as do Beto),não tem o bolo de chocolate surpresa,não tem os maridos das amigas me carregando no colo e falando bobagem,não tem tanto presente,nem tanto abraço,tampouco vinho,limoncello e caffè. O sabor desta vez é outro, tem gosto de serenidade, com a inquietação de sempre,com os questionamentos de sempre,mas com a tranqüilidade que jamais existiu.
O 2 de julho de hoje tem também um pouco de solidão,mas toda solidão tem um pouco de poesia,todo canceriano tem um bom tanto de sensibilidade e nostalgia.
Aqueles que hoje me chamaram de guerreira, ao telefone, são os que verdadeiramente me conhecem, são os que realmente contaram ao longo destes anos.Meu pai costumava dizer que quando eu nasci,o médico que era seu querido amigo e que me deixou com um grande nó na garganta quando se foi,no início deste ano,disse:2 de julho,dia da Revolução Baiana. Nunca me senti revolucionária,nunca quis mudar o mundo.A única coisa que eu quero revolucionar sou eu mesma,todas as vozes que dentro de mim às vezes brigam,às vezes fazem às pazes,às vezes se calam.Tudo o que eu quero é poder ser assim,tudo o que sou.

Obrigada, Renata,pela belissima homenagem que me fez.Seus olhos conseguem ir além,imagine todo o resto...

Personagens de BH

Foto by Isabela

Este é o senhor Pedro, que ficou tímido com meu pedido de fazer uma foto sua.Ele trabalha no Sacolão da Economia,próximo ao Mercado Central.Tendo um forte concorrente na esquina da frente,a função do senhor Pedro é atrair a clientela, anunciando as ofertas.Hoje era dia de banana,laranja serra d'água,mexerica pokan e do maço de brócolis.

Primeiras palavras do meu dia

"Sorte é quando a compêtencia encontra a oportunidade"

Esta foi a primeira frase que escutei hoje,dia em que completo 27 anos