domingo, 8 de fevereiro de 2009

Algumas verdades

Fotos de Isabela e Beto


Essa semana, ouvi de uma pessoa que a Índia pra ela, não é nada além que pura ignorância.
Pensei que um elefante caminhando na minha frente,ou um rato passeando pelo meu quarto me incomodam muito menos que as rodas de pseudointelectuais no café da livraria ou no restaurante do museu.
Imaginei que o cheiro de xixi misturado ao perfume das especiarias me embrulhava menos o estômago que o perfume francês e os quilos de maquiagem da moça do elevador.
Lembrei que tirar os sapatos e entrar dentro de um templo descalça pra mim foi muito mais prazeroso do que experimentar o sapato da vitrine da loja.
Senti que o sorriso gratuito e sincero pelas ruas da Índia era muito mais honesto do que tantos que eu ando recebendo por aqui.
Lembrei que as estações de trem, com o chão repleto de gente dormindo encolhida, eram mais aconchegantes e menos frias que a sala de espera de um consultório médico.
Lembrei que a curiosidade pura e inocente dos indianos era muito menos agressiva daquela das pessoas que fingem te dar conselhos.
Preferi milhões de vezes sentar no chão, comer com a mão e dividir meu alimento com alguma baratinha do que enfrentar a fila pro restaurante granfino, escutando conversas sobre a vida de quem eu nem conheço.
Vi que o abraço dos homens pelas ruas da Índia eram mais significativos que o aperto de mão entre os senhores engravatados.
Tive vontade de responder à pessoa que reduziu a tradução da Índia na palavra ignorância, mas achei melhor me fechar eu mesma na minha ignorância.
Hoje decidi: quero ser a mais ignorante de todos os seres humanos.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Um palco para Tinoco

Foto da Revista Brasileiros

Quem não se lembra do Tinoco, que junto do irmão Tonico cantava as canções que a gente escutava no final de semana na roça? Quem não se lembra da triste história do Chico Mineiro contada nos versos dos dois caipiras?
Há alguns meses, eu li uma reportagem do Ricardo Kotscho para a revista Brasileiros sobre o rumo que a vida do Tinoco tinha tomado sem o irmão Tonico, que morreu em 94.
Da aposentadoria de mil reais que ele ganhava, dos 2,5 mil reais que ele tirava de cachê em shows nos sorteios da loteria e do dinheirinho que ele recebia em apresentações simples em casamentos, batizados e eventos por esse Brasil afora. Na minha cabeça, eu ficava imaginando um senhorzinho de idade, chegando num galpão humilde, numa churrascaria pra cantar com nostalgia as modas de viola que o tempo deixou pra trás na memória do povo.
Me lembro de ver as fotos na revista, de um Tinoco de blazer amarelo ovo, cabelos brancos na altura dos ombros, segurando um microfone com alegria, fazendo aquilo que fez pela vida inteira por prazer e que hoje é mais que uma necessidade.
Tinoco é só mais um daqueles artistas que tiveram seu auge, que da origem humilde subiram aos palcos, viram multidões nas festas de rodeio, nos estúdios de televisão e que hoje, passam seus dias no quase esquecimento, tentando reunir as forças que restam para tocar a vida.
Tinoco é um grande artista popular, disso ninguém tem dúvida. Tinoco é história, é cultura, é patrimônio. E hoje eu soube que Tinoco tem que rifar seu carro, o veículo que o leva para fazer os pequenos shows, pra pagar o tratamento de câncer da mulher. É que a música nao cura, a poesia não é remédio, a moda de viola não faz passar a dor. A vida é frágil e imprevisível, assim como a inesquecível história do Chico Mineiro.

Um anjo no céu

Foto pelo Google

Quando a gente era pequena, maio era o mês de vestir de anjo para coroar Nossa Senhora. Acho que eu nunca entendi o sentido daquilo. Pra mim, significava sair da escola e ir direto para igreja pegar em um papelzinho escrito à mão, o refrão da música e o texto que me cabia, que dependia do presente que eu daria à Nossa Senhora.
Podia ser o terço, a palma, o véu, as flores ou o mais importante, a coroa, que era super disputada pelas anjinhas.
Todas às tardes, depois da aula, a gente ia pra igreja ensaiar,acompanhadas das nossas mães. Enquanto isso,durante a semana, elas conferiam se as pomposas asinhas de pena de ganso dos anos anteriores ainda estavam intactas.O mais divertido,porém era ir nas distribuidoras de balas e doces escolher as guloseimas das surpresinhas. Quando terminava a coroação, a gente corria pro salão da igreja pra pegar a sacolinha de doces feita pelas mães das anjinhas que tinham feito a coroação. Algumas vezes, a gente saía satisfeita, outras um pouco decepcionadas. Me lembro que ao passar de cada ano, as surpresinhas iam minguando pouco a pouco.
No altar da igreja, existiam duas janelinhas, uma à esquerda e outra à direita. Elas se abriam e de lá,saíam dois anjinhos. Pra mim, era uma passagem secreta e eu morria de inveja dos anjinhos que entravam ali.
Um dia, muito tímida, eu pedi à senhora da coroação pra ser a anjinha da janela. Eu morria de medo de cair escada abaixo,tropeçando naquele vestidão comprido com aquelas sapatinhas brancas escorregadias.
Ela deixou e, pela primeira vez,eu percorri a passagem secreta.Que emoção!Abri a janelinha e lá de cima vi a igreja inteirinha olhando para aquele anjinho que estava ainda mais perto do céu.Não era meu dia de coroar, por isso nem me passou pela cabeça o medo de esquecer a fala,a música.
Fiquei ali, de mãozinha posta olhando as pessoas e imaginando qual seria a surpresinha daquela noite.

*ainda tenho minhas fotos de anjinha,um dia coloco aqui

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Como uma Miragem

Foto por Isabela


Ele não sabia falar inglês.Bastou um gesto e um sorriso sem graça pra gente entender que o que ele queria era que a gente tirasse uma foto da esposa e do bebê diante do imponente Taj Mahal. Nos passou uma velha câmera daquelas que a gente aperta o botão e gira pro filme rodar. Eu aproveitei e saquei a minha pra registrar o momento do flash. De longe, o pai tentava chamar a atenção do bebê para que ele olhasse pra câmera, enquanto a fila aumentava de russos,japoneses e americanos querendo fazer pose em frente ao Taj.
A mulher ajeitou o sári verde de seda,segurou firme o bebê e olhou pra gente,enquanto sutilmente o Taj mudava de cor com o dia amanhecendo. A neblina que cobria a base, fazendo com que ele parecesse uma miragem, já tinha sumido e a minha vontade era de que aquele momento jamais acabasse.
Vi aquele instante imortalizado na casa de uma família indiana, bem em cima de um móvel velho, guardando junto com o pó,a lembrança de um dia de inverno em Agra,num monumento dos sonhos. Uma das imagens mais lindas e significativas que eu jamais esquecerei... por toda minha vida.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Amigos do Bicho

Foto do blog Amigos do Bicho


Não dá um aperto no coração quando a gente vê um bichinho na rua sujo, abandonado, machucado? Tem gente que não fica só no aperto no peito e faz alguma coisa. É o caso da Kelly e da turma dela que criaram o Amigos do Bicho, um projeto que cuida desses bichinhos abandonados, incentivando a adoção, cuidando, alimentando e esterelizando.
Tudo com muita boa vontade e amor. Se você quiser ajudar,pode comprar esta camiseta super legal que eles vendem e que custa só R$23. No blog dá pra ver os animais que estão em busca de um lar.
www.amigosdobicho.blogspot.com

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Racismo gastronômico

Foto por Google

Atenção!!Os bons costumes e a etiqueta recomendam que os talheres estejam bem posicionados, os guardanapos sejam de pano e que o vinho e a comida sejam obrigatoriamente italianos. Isso mesmo. Nada de mãos tocando a comida,nem pauzinhos, nem canudos,nem muita pimenta. Carne de peru rodando em vetrine??!!Deus que me livre. Isso é coisa de Alah.
Não gente, não é uma piada.Essa é a mais nova forma de racismo à la italiana, algo que poderíamos chamar de racismo gastronômico. Está no Corriere della Sera de hoje pra todo mundo ver, mais um atentado contra a lógica da união comum entre os homens.
Foi aprovado um decreto na cidade de Lucca, na Toscana, que proíbe a atuação de qualquer atividade dos restaurantes étnicos no centro histórico.
Do lado de dentro da muralha medieval(tal como a mentalidade de quem criou este decreto)que contorna o centro, o cidadão italiano ou o turista será contemplado com pratos deliciosos e típicos da culinária italiana. Ah, e se não for chegado à pizza e pasta, não tem com o que se preocupar, a culinária francesa, espanhola ou alemã também podem ser encontradas.
Agora, se você quiser experimentar um noodle chinês, um kebab árabe, um curry indiano ou um cuscuz marroquino, deve caminhar um pouquinho e sair de fininho por alguma das imponentes portas de Lucca.
Quem fez o decreto defende a integridade de um patrimônio cultural e histórico italiano, já que na área onde vivem 8 mil luccheses já existem 5 lojas comercializando kebabs.
Meu Deus, a cozinha italiana está realmente em perigo!!Chamem um mestre cuca e por favor, deem uma panelada muito bem dada na cabeça deste idiota. Essa é realmente difícil de digerir.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Narrativas Vivas de Yasmin

Fotos de Renata Rocha

A menina perguntou meu nome mas bastou pouco tempo para que esquecesse.Passou a me chamar de loirinha ou de tia. O dela era nome de flor, fácil de lembrar.Ela me mostrou o tênis,mas disse que odiava aquela cor. Eu disse que achava bonito.
Ela tirou os óculos e pediu que eu conferisse se estavam arranhados, mas a mãe interviu dizendo que tinha acabado de limpar. Ela me contou que tinha 9 anos, depois me perguntou:
Esse ano voce vai no meu aniversário?
Vou sim.
Eba!Ganhei o meu dia! Você vai encomendar o bolo?
Claro,bolo de que que voce quer?Chocolate,morango,baunilha...
Aquele que vem com um pato desenhado e o parabéns escrito.Você encomenda pra mim?
Pode deixar.
E você vai me vestir de princesa?
Claro,que cor que voce quer o vestido?Quer rosa?
Pode ser.Hum...eu tenho uma sandália linda, acho que vai combinar,ela é bege.Você viu meu desenho que eu fiz ontem?
Não,eu não vi. Você gosta de desenhar?
Eu gosto. A gente vai desenhar hoje?
Vai,vai sim.Quero que você faça um desenho bem bonito,tá bom?
Vem cá,vem cá! Me ajuda aqui,sozinha eu não consigo.
O que você precisa?
Eu fiz a árvore. Me ajuda a fazer as frutinhas?Quero uns morangos.
É só você fazer assim com a massinha,ó. Bota aqui,ó!
Bota não,CO-LO-CA
Tá bom,coloca então
Pinga a cola pra mim,vai!Não...num é aqui,é aqui.Arrrrr!Vamos fazer umas bananas.
Ok
Agora abacate
Ok. Assim tá legal,posso colar aqui?
Sim,sim!!!!Ficou lindo!