terça-feira, 24 de março de 2009

De Maiakóvski

Imagem Google

"Sei o pulso das palavras, a sirene das palavras. Não as que se aplaudem do alto dos teatros, mas as que arrancam os caixões das trevas e poem os poemas a caminhar, quadrúpedes de cedro. Às vezes, as relegam inauditas, inéditas, mas as palavras galopam com a cilha tensa. Ressoam os séculos e os trens rastejam para lamber as mãos calosas da poesia.
Sei o pulso das palavras. Parecem fumaça, pétalas caídas sobre o calcanhar da dança. Mas o homem, com os lábios da alma, é apenas carcaça"

sábado, 21 de março de 2009

De volta aos refis

Fotos de detersivifusi.it e Google


Ainda hoje me lembrei dos tempos em que a gente colocava as garrafas de coca,fanta e guaraná no engradado e subia rumo à padaria ou ao bar pra voltar para casa com refrigerante geladinho na mão. Era aquele troca troca de garrafas que a gente nunca mais viu. Saudades daquela época.
Hoje, não tem mais troca, nem contato com o cara que ficava atrás do balcão. Pegamos a embalagem de plástico na prateleira, colocamos na sacola de compras (de plástico) e vamos pra casa sem nem saber a grande bobagem que estamos fazendo.
Banir as embalagens representaria uma economia de 20 a 70% pro nosso bolso e uma considerável redução no custo no tratamento do lixo.
Se a gente pára pra pensar, é realmente possível diminuir o impacto ambiental das embalagens. Na Itália, e certamente em tantos outros países da Europa, já existe nos supermercados, uma espécie de central de abastecimento para produtos de embalagem reaproveitável. No caso dos produtos de limpeza, a gente compra a embalagem e quando o produto acaba, enche de novo nessa máquina, como um refil. E isso acontece também com o leite, café, arroz, legumes, fruta seca, vinho e até óleo de oliva. Outra vantagem, é que a gente pode comprar somente a quantidade necessária, sem desperdício.
Dizer não à embalagem torna-se uma atitude ainda mais ecológica quando a gente compreende o desdobramento desta simples mudança de hábito.
A produção de uma embalagem de plástico de um litro necessita de uma energia correspondente à 25 lâmpadas incandescentes de 100W acesas por uma hora, 2 banheiras de água cheias e emissão de CO2 igual à de um carro por 1km de percurso na cidade, sem trânsito. Imagina o benefício pro mundo se conseguirmos diminuir o consumo destas embalagens.

Essa é a máquina do leite


O self service de produtos de limpeza num supermercado italiano

quarta-feira, 18 de março de 2009

A Brasília indiana

Fotos Google
Le Corbusier e o projeto de Chandigarh

Quem vê o caos que reina na Índia, com carros, motos (às vezes montadas por até 5 pessoas), riquixás, vacas, camelos, elefantes e bilhões de pessoas transitando, não pode imaginar que no norte do país, existe uma cidade projetada por ninguém menos que Le Corbusier.
Chandigarh fica no estado do Punjab e foi a primeira cidade planejada dos anos 50.Nasceu depois que o território indiano foi dividido com o Paquistão e o Punjab perdeu sua capital. Seu nome foi uma homenagem à deusa "Chandi", cujo templo estava localizado nas proximidades.
O projeto foi encomendado a Le Corbusier pelo primeiro ministro Nehru, que queria criar um modelo de desenvolvimento da Índia moderna.
O arquiteto concebeu a cidade como o desenho de um homem modular. Na cabeça, fica o Capitólio, onde foram planejados prédios para a sede do governo, parlamento e corte de justiça. No coração, está uma praça central e a principal área de compras. O pulmão abriga jardins com rosas coloridas e gramados bem tratados e o corpo se desenvolve com os amplos setores resdenciais.
Os bairros foram desenhados de modo que pudessem ser autônomos, com lojas, escolas e templos próprios.Ao contrário do que se vê nas outras grandes cidades indianas, Chandigarh é cheia de canteiros com árvores, praças e jardins. A cidade se destaca por índices positivos de desenvolvimento comparados ao resto da Índia. A maior taxa de alfabetização e de renda per capita vêm de lá.
Apesar da boa intenção de Nehru e do esplêndido exemplo de arquitetura de Le Corbusier(que muito inspirou na construção de Brasília, logo em seguida)Chandigarh também enfrenta os problemas das metrópoles urbanas. Com uma população de 1,5 milhões de habitantes, a cidade sofre com problemas de engarrafamento e a expansão das favelas.
O grande desafio agora, é aliar o crescimento econômico e demográfico à herança arquitetônica deixada por Le Corbusier. Chandigarh mostra que o espírito inovador de seu construtor sobrevive ao tempo, ganhando forma na tecnologia. Até 2012, a cidade quer se tornar a primeira na Índia a ser suprida inteiramente por energia solar.

Em minha viagem à Índia, não pude visitar Chandigarh. Mais um motivo para voltar.
O Palácio da Assembleia

A mão aberta, símbolo da cidade

terça-feira, 17 de março de 2009

Casa do futuro

Imagens Corriere

Muito se fala nas casas do futuro com estruturas eco sustentáveis, design moderno e com o mínimo possivel de impacto ambiental.
A exótica Kuala Lumpur, na Malasia, ganhará em 2010 a Bird Island, um complexo de 6 biocasas projetado pelo estúdio Graft de arquitetura. A ideia surge da beleza de aproveitar o ambiente externo, com a flora maravilhosa em uma zona de conforto e contato máximo com a natureza. Para que paredes tradicionais quando se está no meio de uma ilha em plena Malasia?
Estender a vida quotidiana para o lado externo da nossa casa quer dizer entrar em choque com barulho, poluição e trânsito. No caso da Bird Island é aproximar-se de um terreno fértil à criatividade, imaginação e bem estar.
No lugar das paredes tradicionais, estruturas em vidro criam o limite entre área interna e externa. Dentro da casa, as paredes serão feitas de um tecido de silicone, material altamente resistente às taxas de umidade e raios UV do território sul asiático. O silicone é capaz de recolher água da chuva e controla a temperatura e a ventilação nas áreas internas da casa.
Por estas preocupações e estratégias de economia de energia, o projeto ganhou nota máxima e a pré classificação Platinum pelo LEED, o sistema de standard de design ambiental.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Alegria,alegria

Imagens Reuters e Afp

Quando a primavera chega na Índia, é hora de pintar um verdadeiro arco íris nas cidades. A pele escura dos indianos ganha contornos e rabiscos multicoloridos.
O Holi Festival, como é chamada esta celebração da primavera, é só mais um dos milhares de rituais curiosos dos indianos. É um dia em que eles pintam uns aos outros, jogam pó colorido pelas ruas, se abraçam e desejam um Happy Holi. Estas são as imagens da Índia hoje, dia do Holi Festival.



terça-feira, 10 de março de 2009

Pensamento do dia

Imagem Google

"Não existe uma noite que eu não coloque minha cabeça no travesseiro e não pense neles"... Me disse um jovem tibetano que conheci em Dharamsala, na Índia, cidade sede do governo tibetano no exílio.
Na parede de sua casa, bandeirinhas de orações, estandartes com mensagens de paz e um poster com a foto de Lhasa, sua terra onde ele jamais voltou, depois de caminhar dias escondidos pelas montanhas do Himalaia, até chegar na Índia.
Os momentos que passei com o povo tibetano foram sem dúvida, os mais marcantes de toda a minha viagem pela Índia. Ali, naquela cidadezinha, entendi muito sobre mim, sobre o mundo e senti uma energia avassaladora de paz e esperança, caminhando com os peregrinos, mentalizando um mundo mais justo.
Hoje, eu gostaria que as notícias fossem melhores para o jovem tibetano que sente tanta falta da sua casa, da sua gente. Hoje, eu gostaria que tudo fosse diferente, que o telefone pudesse tocar em Dharamsala, assim como em Lhasa e que as barreiras que fecham o Tibet não passassem de muralhas geladas e imponentes da paisagem do Himalaia.

domingo, 8 de março de 2009

Uma mulher especial

Imagem Google

Alessandro, um dos homens mais mulher que eu conhecia, me deu um ramo de mimosa. Coloquei a florzinha num copo com água para que ela passasse bem o dia, até que eu pudesse levá-la pra casa. Fazia muito frio naquele 8 de março de 2007.
Neste mesmo dia, chegou Alessandra, radiante com seu batom vermelho exagerado, as bochechas de blush e a face inteiramente coberta por um pó que tentava esconder os pequenos fios de barba que nasciam.
Ela não tinha muito dinheiro e se vestia de forma exagerada, com botas de salto alto, óculos escuros enormes e camisetas coladas que denunciavam a tentativa frustrada de parecer peituda.
Alessandra pediu a Francesca para ver um bracelete de couro laminado dourado que estava na vitrine, enquanto Alessandro observava horrorizado aquele ser bizarro. O bracelete quase não entrava no pulso da Alessandra, que fazia um esforço descomunal para não passar o constrangimento de não possuir os braços delicados que sonhava.
Finalmente, conseguiu enfiar o bracelete dourado e, como não sabia se conseguiria retirá-lo, disse que ficaria com ele, sem nem mesmo perguntar o preço. Era uma pseudo mulher orgulhosa, que não queria demonstrar suas fraquezas.
Não era uma cliente assídua. No inverno, passava de casaco de pele velho, cheirando a mofo e naftalina. Quando não lembrávamos mais dela, lá estava a figura, dando tchauzinho do outro lado da rua.
Jamais conseguimos descobrir seu nome verdadeiro, porque ela nunca pagou com cartão de crédito. Aparecia sempre com um maço de dinheiro suspeito que a gente jurava ser da noite anterior.
No nosso imaginário, Alessandra tinha um escritório na avenida principal do parque, que dividia com inúmeras colegas da mesma classe. Por não ser muito bonita, ela tinha que batalhar muito pra garantir um troco pra três, quatro vezes ao ano, vir nos visitar.
Enquanto ela se dirigia ao caixa para pagar o bracelete que obrigatoriamente comprara, eu desci correndo as escadas. Peguei a mimosa que Alessandro tinha me dado pela manhã e sacudi para que o cabinho secasse. Quando cheguei, Alessandra estava de saída. "Ale, feliz dia das mulheres", eu disse, entregando o raminho de mimosa.
Ela sorriu surpresa, me abraçou e disse: Obrigada,tesouro. Até a próxima!